quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Diálogo na Praça

Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Diálogo na praça

                Acomodados  na Praça  Dom  José  Gaspar, ao lado da biblioteca  Mário de Andrade, em uma tarde  de garoa  tipicamente  paulistana, vizinhos que eram Camões e Cervantes, cansados de ser estátua e ficarem mudos, decidiram romper as vaidades e conversar.

- Sabes tu, Camões, que ando  aborrecido?

- Ao que  responde Camões:

- Ó pá, por que te aborreces?

– Não deixam  mais ficar aqui  meu companheiro de tantas lutas, meu mui amigo Rocinante, tampouco meu irmão e fiel escudeiro Sancho Pança.

– Ora, pois, se a praça é pública, como pode ser isso?

– Não sei, e por isso me aborreço. Tenho saudades de minha terra, de minhas aventuras que  agora só existem lá em meus livros e o pior, muito pouco visitadas.

- Ora, isso é mesmo verdade, cá nesta praça. Também estou a olhar a  angústia deste povo tão sofrido  e isto porque olho  com um só olho, pois como sabes o outro está  a danar-se.

- Mas mesmo assim tu também viveste grandes aventuras e as cantaste em versos nos Lusíadas , a louvar tua pátria , e disso todos os seus se sentem  orgulhosos .

- Sim, sim, sem modéstia, isso é bem verdade.

– Mas estava eu a falar da falta que me  faz não poder lutar por esse povo , salvá-lo desse mal  que o aflige: o flagelo da miséria.  Com certeza se conseguir burlar a segurança e munido de meu Rocinante e de meu escudeiro e de minha coragem,  que nunca  há  de me faltar,  e de minha lança, lutarei  até a morte como é a lei dos  cavaleiros andantes.

- A mim também me cabe agir, disse Camões, tirando um cisco do olho. Nesta praça os poetas falam de seus amores, cantam suas desventuras e me pedem versos para louvar suas amadas. Fazem juras de amor nos bares da vida...  mas claro que não cumprem, mas eu os perdôo, afinal poeta e romântico são espécies em extinção...

Já exaltado pela bravura, Cervantes grita:

- Já estou a nos ver envolvidos com este povo maravilhoso e podemos lutar juntos! A bem da verdade, antes que isso aconteça gostaria de lhe pedir um favor: que faças uns versos, mas que sejam bem apaixonados para que eu os mande a Dulcinéia  del Toboso,  minha amada e senhora de meu destino, pois que há muito tempo  não lhe mando notícias minhas.

– Sim,sim, mas deixe que te digas, amigo, sinto-me muitíssimo lisonjeado com a tarefa  a mim incumbida. Serão versos de amor para ficarem na história.

- Caríssimo amigo, tenho uma notícia que me enche de entusiasmo, amanhã nos engajaremos em uma passeata que merece nossa luta. Lutaremos  mesmo sem Sancho, sem lança, sem meu elmo de  Mambrino que leve a breca, ou melhor, que leve a beca! Sairemos em passeata em defesa dos professores!

E assim  foi. Porém, o que os ilustres não contavam era com a intervenção bruta da polícia, que aos dois desceu o porrete, e que ao final ficaram moídos de pancada.

– Terra de filhos da puta!!! vociferava Camões, perdendo toda a lisura da clássica língua portuguesa.

- Ingratos! Analfabetos! (claro está, que se referia aos policiais)

– Que me tragam os ungüentos! gritava ao seu lado Cervantes. Que minhas costas estão que mal posso respirar.

A esfrega dos amigos foi dura. À noite, quem passava pela praça ouvia gemidos lancinantes de dor, mas claro não se davam por vencidos.

Na manhã seguinte, cheios de hematomas das cacetadas que receberam e ainda atônitos com a violência a que  foram vítimas, resolveram que era muito melhor voltar a ser estátua.

Porém (sempre há um porém em toda a história que se preze), tiveram um ultimo diálogo.

- Caríssimo, foi muito  muitíssimo prazeroso lutar a seu lado. Foste muito valente, ferino e bravo, companheiro! Guardarei essa lembrança com muito carinho e a carta que mandei a minha mui amada Dulcinéia del Toboso não me deixa mentir: fizeste mesmo  um belíssimo poema de amor a dar inveja a todos os poetas,  mesmo a esse vizinho ilustre  chamado Mário. Aproveito o momento para desejar que ele seja muito feliz em sua paulicéia desvairada. Estou feliz,  apesar de termos sido moídos de pancada, lutamos! Eis a prova de que sou um  representante dos cavaleiros andantes.

- E tu, Camões,  fizeste bom uso da palavra em um grande discurso com tua língua ferina, defendendo a bravura deste povo, a esperança, que é tudo em que um poeta acredita e o povo necessita. Estou deveras feliz por ter cumprido meu papel de defender as causas que acredito! De defender os injustiçados, os oprimidos... e se por um momento nos fizeram acreditar em nossa derrota, isso não passa, eu repito, de obra dos encantadores, como sabes,  de inverter a realidade. Agora, antes de ir-me  definitivamente, queria ouvi-lo, meu companheiro, meu grande amigo e poeta.

– Sem trocadilhos, meu admirado e bravo cavaleiro andante, estou sem palavras! Estiveste à altura de tua própria fama, meu fidalgo amigo. À altura e acima do que escreve a história sobre ti. Espero que ainda voltemos a nos encontrar, depois de um longo repouso nesse corpo de aço. Que em nossa hibernação cultural possam os poetas e os apaixonados continuar a cantar canções  de amor. Que a praça volte a ser do povo!

E assim, num passe de encantamento, voltaram a ser estátuas novamente. Dizem que o narrador que testemunhou  esse diálogo, na verdade não dizia coisa com coisa... Talvez se passasse por maluco, talvez, não sei...

Só anotei o que ouvi dele mesmo, José Agripino. Ele jura que tudo foi realmente obra de encantamentos. Depois que foi liberado pelos médicos e  saiu do  hospício,  confessou-me emoff, com  uma cara de maroto, que queria viajar de carona pela  Panamerica e não pretendia voltar tão cedo.

Deu-me um livro com dedicatória que confesso, pelo estado de choque que fiquei, ainda não li. Quando acontecer, se acontecer, volto a dar notícias dele, o livro, claro...

   Texto :  Leonel Possatti

 


Contando Carneirinhos


Três horas da madrugada . Olhos arregalados, boca seca.  Respiração com  sofrível disritmia.   O corpo está quente. O relógio digital à minha frente pulsa junto com a minha respiração.Existe um silêncio no quarto.Dormir nem pensar ...Será que o próximo minuto também será assim ?Penso em levantar! Imagino ir até a cozinha, beber água e voltar. Voltar e dormir...Dormir? Como sou otimista...Ok ! Fiz isso!  Voltei... Olho para a cama  e dou uma piscada...Amanhã tenho que acordar cedo. Mas como acordar se não consigo dormir?Repito: como posso acordar se não consigo dormir?Minha cabeça inicia uma patrulha. É... não estou bem. Tenho que reagir!  Vou procurar uma barata para matar. Não tem barata. Que tal imaginar o próximo minuto?O próximo minuto começou e não aconteceu nada.Começo a tremer. De medo. De pânico! Começo a suar frio! Agora não consigo nem piscar.Três horas e trinta da madrugadaTem mais quatro horas pela frente. Tenho que acordar às sete. Caramba! Parece um conto ! E pior, não posso adiantar a história, pois tudo está acontecendo em tempo real. Nossa, já pensei tanta coisa e tudo vai se repetir.Olhos arregalados. Boca seca. Respiração com sofrível disritmia. Espere aí... Não vou pensar tudo de novo. Vou colar e copiar o meu pensamento.Tento, mas... impossível! O meu teclado é virtual e está cheio de dedos. Trêmulos!É a tremedeira... Estou tremendo... Um frio na barriga, adrenalina descontrolada.Opa...O que ouço? Uma mosca ! Escuto o som de uma mosca voando no meu quarto ! Beleza !Vou matá-la .. Exercício faz dormir ..Ah! Pego uma toalha e... pimba!Não acerto na primeira, nem na segunda, mas na quarta tentativa... um abraço!Ela cai ainda viva... Agora é só consumar o ato.Vou em direção dela e quando vou esmagá-la ... ela se mexe  e tenta  recuperar-se  do impacto. Ok ! Chegou sua vez, penso. Mas logo em seguida penso de novo: se matá-la o que vou fazer depois?Assim, ela se recompõe e voa de novo. Ah... Agora sim... Vou mostrar minha precisão!Toalha pra cá, toalha pra lá e pimba!Escuto o som que parecia um caça da segunda guerra estolando, sem sustentação.E o ruído seco do momento final.Satisfeito vejo que ela fez passar 30 minutos de minha intrigante jornada noite adentro... É mole ?Deito novamente, fecho os olhos e começo a contar:Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos, cinco carneirinhos...Estou ficando sonolento... Agora vou dormir...Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos, cinco carneirinhos...Vinte carneirinhos... 50 carneirinhos...Estou ficando nervoso ...

Copiar colar carneirinhos... Copiar colar carneirinhos...ZZZZZZ.......ZZZZZZZ........ZZZZZZZZ........ Ah não!...Não é possível! Acordei de novo... Epa! Tem uma mensagem na minha mente ...Carneirinhos Error...Carneirinhos Error ...Try again ....Despertador grita ...Confesso que cansei, e para o meu derradeiro desespero são 07 h da manhã...Tenho que trabalhar...Escutar meu chefe falar do fim de semana... dos filhos dele ...do passeio no parque.... não mereço ..Me arrumo e pego o busão ...Alguns minutos após , já no busão .... Z z z z z z z z z z z z z zzzzzzz zzzzz zzzz zzzz zzz zzz zzz zzz zzz zz zzz zzz 

 Texto : Ademir Teles

 

Caramba Negão

Domingo, 11 de Janeiro de 2009

Caramba negão !




Nada como algum momento  a sós para repararmos nossos pensamentos, indexarmos nossas prioridades, balancearmos nossas alegrias,nossos conflitos , mergulharmos adentro e darmos de frente com nossos medos ao longo dos nossos dias  vividos. 

E foi num desses momentos, que entrei em meu quarto, apaguei as luzes, sem nenhum barulho a me incomodar, comecei a fazer uma limpeza nos meus estresses, sentimentos e tudo mais.    

Comecei a me imaginar nascendo, o primeiro choro, após o primeiro tapa dado pelo médico, a infância simples e pura, da saudade daquela chuva da tarde no interior, dos barquinhos de papel a escorregar graciosamente pela correnteza, dos pés descalços, sem camisa, olhar inocente, pronto para o que der e vier. Isso sem contar as pipas, os carrinhos de madeira, o bilboquê, o patinete, as peladas e por aí vai... 

Chego então na  adolescência que passou rápido, onde entramos no terrível período do conhecimento, do primeiro emprego, da primeira namorada, o sentimento de herói, um pouco dono de um mundo que parece ser só seu e o das possíveis  desventuras.. 

Finalmente entramos amargamente nas contas dos “enta”, quarenta, cinqüenta, sessenta, e é aí que nos defrontamos com a mais temerosa pergunta: até quando? 

Já contava Wood Allen, que em uma festa, um amigo perguntou se estava contente de estar naquele evento e ele respondeu prontamente:

- Com certeza! Porém com a minha idade estou contente de estar em qualquer lugar...O importante é estar... 

E assim continuo meu auto conhecimento, mas interessante mesmo é que não vieram lembranças tão ruins, embora tivesse passado por intempéries de todo o tamanho, as coisas boas resistiram em meus pensamentos. 

Lembrei-me então de coisas pequenas, mas que me fizeram sorrir, e de certa forma criaram pointers em minha existência: 

Como exemplo, um porteiro de meu prédio em dado  momento da vida chamado Adelino, que um dia me cumprimentou ao chegar do trabalho:

- ´  Utentasso´  seu Demí.

Eu não entendi direito, mas ele repetiu:

- Utentasso seu Demí.

Eu prontamente respondi:

- Utentasso. 

E subi ao meu apartamento  perguntando: será que o Adelino apreendeu a falar alemão? 

Mais tarde fui comprar pão e não agüentei:

- Adelino, você falou em que lingua quando adentrei no prédio, quando disse Utentasso ?

E ele respondeu:

- Não seu Demi, eu falei Utentasso, a lutcha de hoje.

- Ah! Agora sim, Adelino! Hoje tem Taison, a luta de hoje pelo título mundial ... Ha sim hoje tem Taison.

Lembrei-me também da ex-secretária de meu pequeno escritório, que tirou uma cópia de um documento e virou toda contente, tentando mostrar eficiência e falou :

- Olha que legal, a cópia saiu igualzinha!... 

Essa mesma secretária não conseguia fazer certa porcentagem em uma máquina de calcular, e falei para ela dar uma limpada e começar tudo de novo. Ela pegou a blusa e limpou o mostrador da máquina!!! 

E aquele mendigo que gritou nervoso para seu largado cachorro que errou o caminho ao atravessar a rua:

- Você sabe que não é por aí, quantas vezes tenho que repetir isso?!

E ainda completou:

- Caramba, negão, o que mais posso fazer por você? 

Ao segurança de uma grande empresa em São Paulo que na  dúvida perguntei :

- Por favor, aqui é zona azul?

E recebi como resposta:

- Desculpe senhor, mas não tenho permissão para informar. 

E  lembrei do meu filho que estava esperando ônibus na Consolação quando um cego que estava ao seu lado , perguntou : 

Por favor que ônibus vem vindo ? 

Ele me contou que   embasbacou mas falou  o que viu ..

É  o  Boa Vista.

 O cego falou : que coincidência filho , mas obrigado ...o meu é o Pedra Branca...  

E teve mais algumas pílulas de humor rememoradas naquele momento de reflexão, que efetivamente passei ! 

Mas fica uma pergunta a todos que leram esta minha coluna:

Nessa minha viagem interior, por que houve uma total predominância de fatos leves e até cômicos que suplantaram coisas sérias e complexas passadas? 

De minha parte, penso que nosso inconsciente também cansa da perversidade diária das tristezas, traumas, medos, dúvidas e incertezas. 

Seria como uma ordem comandada pela nossa mente, para darmos uma tangenciada para o sei lá o que , é determina para deixar a vida correr, no fim tudo dá certo... 

É como se a nossa mente desse uma dura como o mendigo para o seu cachorro: 

Caramba, Negão, o que mais posso fazer por você?    

          Texto : Ademir Teles