Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009
Diálogo na praça
- Sabes tu, Camões, que ando aborrecido?
- Ao que responde Camões:
- Ó pá, por que te aborreces?
– Não deixam mais ficar aqui meu companheiro de tantas lutas, meu mui amigo Rocinante, tampouco meu irmão e fiel escudeiro Sancho Pança.
– Ora, pois, se a praça é pública, como pode ser isso?
– Não sei, e por isso me aborreço. Tenho saudades de minha terra, de minhas aventuras que agora só existem lá em meus livros e o pior, muito pouco visitadas.
- Ora, isso é mesmo verdade, cá nesta praça. Também estou a olhar a angústia deste povo tão sofrido e isto porque olho com um só olho, pois como sabes o outro está a danar-se.
- Mas mesmo assim tu também viveste grandes aventuras e as cantaste em versos nos Lusíadas , a louvar tua pátria , e disso todos os seus se sentem orgulhosos .
- Sim, sim, sem modéstia, isso é bem verdade.
– Mas estava eu a falar da falta que me faz não poder lutar por esse povo , salvá-lo desse mal que o aflige: o flagelo da miséria. Com certeza se conseguir burlar a segurança e munido de meu Rocinante e de meu escudeiro e de minha coragem, que nunca há de me faltar, e de minha lança, lutarei até a morte como é a lei dos cavaleiros andantes.
- A mim também me cabe agir, disse Camões, tirando um cisco do olho. Nesta praça os poetas falam de seus amores, cantam suas desventuras e me pedem versos para louvar suas amadas. Fazem juras de amor nos bares da vida... mas claro que não cumprem, mas eu os perdôo, afinal poeta e romântico são espécies em extinção...
Já exaltado pela bravura, Cervantes grita:
- Já estou a nos ver envolvidos com este povo maravilhoso e podemos lutar juntos! A bem da verdade, antes que isso aconteça gostaria de lhe pedir um favor: que faças uns versos, mas que sejam bem apaixonados para que eu os mande a Dulcinéia del Toboso, minha amada e senhora de meu destino, pois que há muito tempo não lhe mando notícias minhas.
– Sim,sim, mas deixe que te digas, amigo, sinto-me muitíssimo lisonjeado com a tarefa a mim incumbida. Serão versos de amor para ficarem na história.
- Caríssimo amigo, tenho uma notícia que me enche de entusiasmo, amanhã nos engajaremos em uma passeata que merece nossa luta. Lutaremos mesmo sem Sancho, sem lança, sem meu elmo de Mambrino que leve a breca, ou melhor, que leve a beca! Sairemos em passeata em defesa dos professores!
E assim foi. Porém, o que os ilustres não contavam era com a intervenção bruta da polícia, que aos dois desceu o porrete, e que ao final ficaram moídos de pancada.
– Terra de filhos da puta!!! vociferava Camões, perdendo toda a lisura da clássica língua portuguesa.
- Ingratos! Analfabetos! (claro está, que se referia aos policiais)
– Que me tragam os ungüentos! gritava ao seu lado Cervantes. Que minhas costas estão que mal posso respirar.
A esfrega dos amigos foi dura. À noite, quem passava pela praça ouvia gemidos lancinantes de dor, mas claro não se davam por vencidos.
Na manhã seguinte, cheios de hematomas das cacetadas que receberam e ainda atônitos com a violência a que foram vítimas, resolveram que era muito melhor voltar a ser estátua.
Porém (sempre há um porém em toda a história que se preze), tiveram um ultimo diálogo.
- Caríssimo, foi muito muitíssimo prazeroso lutar a seu lado. Foste muito valente, ferino e bravo, companheiro! Guardarei essa lembrança com muito carinho e a carta que mandei a minha mui amada Dulcinéia del Toboso não me deixa mentir: fizeste mesmo um belíssimo poema de amor a dar inveja a todos os poetas, mesmo a esse vizinho ilustre chamado Mário. Aproveito o momento para desejar que ele seja muito feliz em sua paulicéia desvairada. Estou feliz, apesar de termos sido moídos de pancada, lutamos! Eis a prova de que sou um representante dos cavaleiros andantes.
- E tu, Camões, fizeste bom uso da palavra em um grande discurso com tua língua ferina, defendendo a bravura deste povo, a esperança, que é tudo em que um poeta acredita e o povo necessita. Estou deveras feliz por ter cumprido meu papel de defender as causas que acredito! De defender os injustiçados, os oprimidos... e se por um momento nos fizeram acreditar em nossa derrota, isso não passa, eu repito, de obra dos encantadores, como sabes, de inverter a realidade. Agora, antes de ir-me definitivamente, queria ouvi-lo, meu companheiro, meu grande amigo e poeta.
– Sem trocadilhos, meu admirado e bravo cavaleiro andante, estou sem palavras! Estiveste à altura de tua própria fama, meu fidalgo amigo. À altura e acima do que escreve a história sobre ti. Espero que ainda voltemos a nos encontrar, depois de um longo repouso nesse corpo de aço. Que em nossa hibernação cultural possam os poetas e os apaixonados continuar a cantar canções de amor. Que a praça volte a ser do povo!
E assim, num passe de encantamento, voltaram a ser estátuas novamente. Dizem que o narrador que testemunhou esse diálogo, na verdade não dizia coisa com coisa... Talvez se passasse por maluco, talvez, não sei...
Só anotei o que ouvi dele mesmo, José Agripino. Ele jura que tudo foi realmente obra de encantamentos. Depois que foi liberado pelos médicos e saiu do hospício, confessou-me emoff, com uma cara de maroto, que queria viajar de carona pela Panamerica e não pretendia voltar tão cedo.
Deu-me um livro com dedicatória que confesso, pelo estado de choque que fiquei, ainda não li. Quando acontecer, se acontecer, volto a dar notícias dele, o livro, claro...
Texto : Leonel Possatti
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